Localização História Estatística Política Cultura Variedade Vistas Personalidades Solidariedade Procurar Créditos Home

Luiz Canales homenageia sua mãe, Santa Braguin Canales, em um emocionante conto de alta sensibilidade, muita dor e amor !

 

CHÁ COM SÃO PEDRO, de  LUIZ CANALES


Santa Braguim Canales
"O chuva! O vento! O neve! Que tortura!

Gritem ao mundo inteiro esta amargura,

Digam isto que sinto que eu não posso!"

(Florbela Espanca)

-I- A DÚVIDA



Nunca quis dizer, "quando a senhora morrer;" ao invés dizia: "quando for tomar chá com São Pedro"  desta maneira não me parecia que um dia deixaria de existir. Era um jeito brincalhão para amenizar a tristeza do fim da vida, principalmente de uma pessoa amada.

Morrer: Verbo que me faz mal ao ouvi-lo. Morte: a coisa mais estúpida que existe; sem nexo. Deveríamos ser como as quatro estações do ano que se renovam. Por mais que me digam isto ou aquilo sobre Deus e a vida após a morte, tenho minhas dúvidas. Se a senhora está mesmo no céu, me diz, então, mamãe: "há um Deus por esses lugares? Esse Deus onipotente e misericordioso que pregam as religiões?" Não sou como Luis Buñuel que dizia: "Sou ateu, graças a Deus." Prefiro a declaração de Miguel de Unamuno: "uma fé que não duvida é uma fé morta."

Por que não podemos ser como a natureza sempre se renovando? Por que não podemos voltar a nossa primavera? Ter novos sonhos, uma carreira diferente? Viver melhor com o que aprendemos na vida passada? A vida é curta demais quando se leva em conta que neste teatro não há ensaios nem videotapes. Escolheu mal seu papel? Não viveu o personagem desejado? A sorte não lhe bateu a porta? Paciência. É tarde agora. Ao fechar da cortina - adeus!

 Apagam-se as luzes de uma vez.

Lembra, mamãe, quando conversávamos sobre esses temas do Além? A senhora também tinha suas dúvidas. Conversávamos por horas. Puxa, que saudades. Nos entendíamos tão bem. Logo após a sua partida, cheguei a pedir que viesse e me levasse. Não veio. Por que? Quem me ouve e quem me entende agora? A triste amargura que sinto é sentir que não vou vê-la nunca mais. Não me conformo; é como se um monstro estivesse me devorando as entranhas. 

O dramaturgo espanhol, Pedro Calderon de lá Barca, (1600-1691) tinha razão ao dizer em "Lá vida es sueno" que o melhor é nascer morto. Ou como afirmou um filósofo americano dos tempos de hoje: "é melhor morrer logo após ao nascer." Não me lembro o nome dele. Se é para vir a esta Terra, lutar, rir, chorar, passar por altos e baixos, e no fim acabar como cinzas numa urna, ou ser comida para vermes, não há cabimento, não há justiça, e somos uns desgraçados com final traçado ao nascer. Seria melhor, então, "nascer morto" ou "morrer ao nascer"? Vale a pena viver?" Amo a vida. Morro de paixão por ela. Então, por que devo deixá-la? "Mas a morte é apenas uma transformação," dizem os crentes; passamos a outro mundo, nos uniremos com Cristo um dia." Explicação demasiadamente simples para mim.

"Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes dos homens." (I Corintios l5:19). Mas como ter certeza, ou prova,de Sua ressurreição? Fé? Cega? Não posso. E quem nos garante que ressuscitaremos? 

Será que está me ouvindo, mamãe? Vendo? Amigos budistas, cristãos, e de outras religiões, afirmam que "sim" que a senhora me ampara, olha e zela por mim. Mas se isso então fosse verdade, porque não me responde? Por que não a vejo? Onde está que não aparece quando a chamo?



-II- A DESPEDIDA



Como foi triste a sua despedida. Além das complicações causadas pelos dois anos de hemodiálise, os ataques matinais de bronquite, o pulmão com água, e ainda por cima, nos últimos dois dias sofreu também uma outra esquemia, a pior de todas as anteriores. A senhora não conseguia falar direito; das outras vezes sua dicção voltava logo ao normal. Desta vez, era angustiante não entender o que a senhora queria dizer; e imagino também seu sofrimento sabendo que não podia se comunicar. Mas, mamãe, será que a senhora tinha noção do que acontecia ao seu redor? Ah, mamãe, como me partia o coração vê-la naquele estado. Será que me reconhecia? Sabia quem eram a Maria e tia Cachi ao seu lado? 

Como pode, então, Deus, que dizem que tudo vê, tudo entende, e não sei mais o que, deixar que a senhora ficasse daquele jeito? Por que criou um corpo sujeito a tantas enfermidades? Dizem que a Natureza é perfeita; não discordo. Mas o homem é uma chama frágil, um ser insignificante frente ao Universo sujeito a desaparecer com o menor sopro. Como pode, então, Deus criar um ser tão débil? 

Mamãe, o monologo que segue é de "Hamlet;" nele o príncipe dinamarquês eleva o homem as alturas, mas ao final declara sua insignificância. A senhora sabe que Hamlet era um eterno atormentado; o "ser ou não ser, eis a questão" o enlouquecia, assim como a mim me tortura.

"Que obra de arte é o homem! Como é nobre na razão! Como é infinito em faculdades! Na forma e no movimento, como é expressivo e admirável! Na ação é como um anjo! Em inteligência é como um deus! A beleza do mundo! O paradigma dos animais!" e aqui, mamãe, vem a triste verdade: "E, no entanto para mim, o que é esta quintessência de pó." 

É isso, afinal, mamãe, pó? Ficamos sendo pó; e depois? Quando vem para me contar? Estou conversando com a senhora sem saber se me ouve ou não. Em minha mente confusa te conto coisas que já deve saber e outras que desconhece. Não me lembro se te contei que um amigo "profetizou" ao dizer: "Quando sua mãe falecer você vai estar no Brasil." E eu, dizia a mim mesmo: "Mamãe vai partir estando em meus braços." 

Cheguei de Curitiba numa sexta-feira de tarde. Havíamos combinado de ir a um shopping tomar um café; se distrair um pouco. A maldita hemodiálise estava acabando com sua vida; te salvava por um lado, te matava por outro. Sua disposição, aquela alegria de viver vanecia aos poucos; a senhora não tinha mais aquela chama, aquela juventude que, apesar de seus 85 anos, era uma mulher lúcida que adorava boas conversas, viagens, boa leitura e bons filmes....... Tudo isso já não eram mais prioridades para a senhora, mas sim dormir; estava desiludida: "Não pensei que minha vida seria assim no final," me disse um dia. Como dói relembrar isso hoje. 

"Vou dormir, estou cansada, depois a gente sai." Eu sabia que a senhora não teria ânimo para sair mais tarde; fingi concordar.

Fui então alugar um filme. Ao voltar da locadora te comprei mais um vaso de flores lilás, nossa cor favorita. Fui até o quarto; a senhora estava sonolenta. As deixei ao lado da cabeceira.


Mais tarde se levantou e assistimos "Amélia," a história de Amelia Earhart, a primeira mulher piloto e que desapareceu em um voo sobre o Pacifico em 1937. Jah quase no final do filme, a senhora disse que estava cansada, que iria se deitar e que lhe contasse o final quando o filme acabasse. Assim o fiz:

"Mamãe, Amélia morreu," te contei meia hora depois.

"Eu sabia que ela morreria." Te beijei na testa, o que era costume; coloquei as cobertas bem ao redor de seu pescoço; te acariciei os cabelos branquinhos que a senhora tinha deixado de tingir, e voltei para a sala.
De madrugada começou a tossir muito. Me levantei varias vezes para te acudir.....Queria chamar uma ambulância, mas a senhora não quis; foi sempre assim, nunca queria que chamasse o pronto socorro. Dizia que não era nada. Fiquei de joelhos na cabeceira da cama; suas costas no meu peito e asssim, meio sentada, poderia respirar melhor. Cuspiu um pouco de sangue no lenço.

"Comi um morango hoje," disse, tentando me enganar para que não me alarmasse. Mas já sabia a verdade.

No sábado cedo a Maria veio para te aprontar para te levar fazer hemodiálise no Santa Catarina.

"Ela não está em condições de ir hoje." Concordei. Chamamos a ambulância. 

Depois que a senhora foi para a UTI não pudemos conversar mais. A esquemia não foi transitória como as outras. Suas cenas finais, mamãe, neste palco da vida, foram dolorosas. Que tristeza ver a senhora naquela cama, olhar distante fitando o vazio, magrinha, e sem poder se comunicar. 

Shakespeare, ao descrever o papel do homem no palco da vida, acertou colocando estas palavras na boca do general Macbeth: 

"Amanhã, e amanhã, e ainda outro amanhã arrastam-se nessa passada trivial do dia a noite, da noite para o dia, ate a última sílaba dos tempos. E todos os nossos outroras não fizeram mais que iluminar para os tolos o caminho que levam ao pó da morte. Apaga-te, apaga-te, chama breve! A vida é apenas uma sombra ambulante, um pobre palhaço que por uma hora se espavona no palco, sem que depois seja ouvido; é a história contada por um idiota, cheia de fúria e muito barulho, que nada significa."


Me perdoe, mamãe, suas palavras eram apenas barulho que não significavam nada. Como me dói relembrar; São Pedro pecou ao te convidar para tomar chá desta maneira. Ele peca ao chamar todos para esse chá amargo. 

Domingo de madrugada. O telefone tocou na casa Maria. Era do hospital. O resto, mamãe, foi aquela correria. Dois dias depois, eu saia do "Crematório Dr. Jaime Augusto Lopes," lá na Vila Alpina. Suas cinzas foram guardadas nesta urna dourada e a mesma colocada nesta frasqueira negra, a qual deveria ser lacrada pela Policia Federal em Guarulhos para que a senhora pudesse viajar comigo para o Japão. 

Sabe, mamãe, pelo menos uma coisa me faz sentir bem; cuidei da senhora 43 anos; praticamente faleceu nos meus braços e fui o único a estar com minhas mãos nas suas, geladas, no crematório ao som de "Não chores por mim Argentina," sua canção favorita. Também escolhi "Moonriver" e "Ave Maria de Gounod......."

Foi assim a despedida. 

Não acredito em dar flores na partida, mas em vida; e te dei tantas, mas tantas mesmo em vida. Não encomendei flores para a essa cerimônia .

Se é que a senhora estava ali presente, não se importou; nunca deixei sua sala sem flores.Desde menino te trazia flores.Me lembro que varias vezes, ao voltar do Grupo Escolar Portugal, parava em frente ao portão do jardim de alguma casa. Batia palmas: 

"O que você quer menino?" 

"Dona me dê umas flores pra levar pra minha mãe?"

E agora mamãe, onde está aquele seu menino loirinho? Acho que ainda está aqui, ao lado de sua urna, no coração de um homem que lutou por sua felicidade. Um homem que, enquanto a senhora vivia, orava para ganhar mais e mais e, desta maneira, ter sempre meios financeiros suficiente para que nunca te faltasse nada. Tudo que pude te proporcionar de excelente na vida eu o fiz..... Diziam que senhora tinha vida de rainha. Será que te proporcionei realmente vida de rainha, mamãe? 

-III- QUEM É RAINHA ...



Onde está aquela senhora vistosa que se vestia tão bem? Aquele porte elegante até para ir ao Pão de Açúcar. Sempre perfumada. E nunca sem deixar de usar algumas peças de sua invejável coleção de bijuteria; gavetas e gavetas com caixas cheias de "balangandãs" de Cármem Miranda, como eu dizia. As jóias verdadeiras a senhora não mais as usava na rua. Mesmo sem elas tinha porte de soberana. Sempre linda. E não havia quem não comentasse sua elegância; elogiavam suas roupas, seu cabelo, as bijuteria o aroma que emanava de suas águas de cheiro e perfumes: Dior, Lancome, Gucci; ate o White Diamonds da Liz Taylor estava na sua penteadeira entre tantos outros frascos que sempre lhe trazia de minhas viagens. 

Após sua primeira esquemia, lá por 2004, se não me engano, nunca mais deixei a senhora morar sozinha. A Maria ficou sendo sua constante dama de companhia. Eu dizia que a Maria era a Cleópatra (por ser ela uma negra bonitona) e a senhora era a Rainha de Sabá, pois me fazia lembrar de Gina Lollobrigida no papel titulo: "Salomão e a Rainha de Sabá."

O Lucas, seu grande admirador, que durante vinte e cinco anos morria de paixão pela senhora, dizia que a senhora tinha porte de rainha e "quem nasce rainha nunca deixa de ser majestade". Era uma grande verdade. E o papai dizia, nos tempos do circo, que quando a senhora subia ao palco punha todas as outras atrizes no chinelo. E agora me lembrei, mamãe, daquele casaco branco que te comprei em Provo, quando ainda era universitário. Eu o apelidei de Marilyn Monroe; pois parecia casaco de atriz de cinema e, a senhora vestida com ele, era uma Rainha Elizabete. Mas vestisse o que vestisse, a senhora chamava atenção; entrasse onde entrasse os olhos se viravam para te ver. O mundo era seu palco. 

Por que tudo acabou, mamãe? Por que o que é bom e bonito tem fim?

É justo?Será que sou louco por pensar assim?Mas, loucura não seria "ver o mundo como ele é, e não como deveria ser," diz Peter O'toole no papel de Don Quixote em "O Homem de La Mancha." Lembra do filme? Estrelava também a Sophia Loren, de quem a senhora tanto gostava. Ah, mamãe, falando de atrizes, não sei se a senhora ficou sabendo, mas pouco após sua partida, foi a vez da Liz Taylor. Tinha 81 anos, 4 anos a menos que a senhora. Se é que ela também está tomando chá com São Pedro, será que se encontraram? Os conhecidos se encontram durante esse chá, mamãe? As famílias se reúnem? Ou é tudo um vácuo, uma névoa, um nada?

Mãe, acabe com a agonia de seu filho e vem me dizer como é essa questão do Além? Se não vier, já tenho a resposta.



-IV- SÃO TOMÉ



"Será que ha mesmo vida após a morte? Deus existe?" Essas suas perguntas me deixavam frio, mamãe. Não sabia o que te responder. E quem sou eu para te dizer se há vida após o último suspiro? E que sei lá se existe ou não Deus? Não acredito em quem diz que Ele existe. Já falou com Ele? Recebeu uma visita? 

"Claro que a vida continua no além túmulo," eu te respondia com a certeza de um teólogo. "Certamente que Deus existe," te afirmava. "Não sei não, meu filho, tenho minhas dúvidas." 

Assim sempre foram minhas mentiras. Te enganava para que a senhora tivesse forças para continuar vivendo. A senhora já sabia o que eu pensava sobre o assunto, mas eu disfarçava, te dizia que era impossível que não houvesse nada do outro lado, que Deus seria um Pai injusto se ao apagar as luzes do palco a continuação fosse um sono eterno.

E quando me perguntava sobre tal e tal pessoa que tinha conhecido em suas viagens ao exterior, eu te dizia que estavam bem. Inventava histórias quando na verdade já tinham partido há anos. Não queria te entristecer; continuava mentindo assim como mentia sobre a outra vida e a existência de Deus. Mentia como o padre Manuel no conto "San Manuel Bueno, Martir" de Miguel de Unamuno.

O padre prega a vida eterna, a ressurreição, para que os fieis de seu povoado pudessem continuar vivendo; era preciso alimentar-lhes a fé, a alma, a vida. Não acreditava, mas pregava com veemência a vida eterna para não matar-lhes o espírito. Um dia, finalmente, confessa seu pecado a uma fiel que o conheceu quando ainda menina:

"Pero en que cree, padre, en que? Cree usted en otra vida? Cree usted que al morir no nos morimos del todo? Cree que volveremos a vernos, a querernos em otro mundo venidero? Cree en la otra vida?" 

Frente a tais perguntas, o padre soluçando respondeu:

"Mira, hija, dejemos eso!"

Mas. finalmente, terminou revelando seu segredo. "Hay que vivir, hay que vivir y dar vida."

Mentia para te dar um pouco mais de vida, mamãe; te enganava com minhas respostas para que suas dúvidas não ficassem fortes como as minhas; não dizia a verdade do que eu realmente pensava porque "hay que vivir y hay que dar vida," por isso, mamãe.

Sou um São Tomé. Encontrei meu credo no "Livro da Sabedoria" atribuído ao Rei Salomão. É livro apócrifa, mamãe. Esta passagem, é o hino do ateu, do agnóstico, o credo de Luis Buñuel. Nela, o sábio Rei de Israel narra como pensam os agnósticos, ateus e ímpios; é uma passagem semelhante a escritura que diz "comamos e bebamos porque amanha morreremos." Ou, aquela referência em "Eclesiastes" na qual Salomão diz que todas as obras que se faz debaixo do sol "é vaidade e correr atrás do vento." (Eclesiaste l:14). 

Estes versículos de o "Livro da Sabedoria" enfatizam a loucura da vida e prega ao homem que viva com paixão porque amanha não restará nada:

"Curta é a nossa vida, e cheia de tristezas; para a morte não há remédio algum; não há notícia de ninguém que tenha voltado da região dos mortos. Um belo dia nascemos e, depois disso, seremos como se jamais tivéssemos sido! É fumaça a respiração de nossos narizes, e nosso pensamento, uma centelha que salta do bater de nosso coração! 

Extinta ela, nosso corpo se tornará pó, e o nosso espírito se dissipará como um vapor inconsistente! Com o tempo nosso nome cairá no esquecimento, e ninguém se lembrará de nossas obras. Nossa vida passará como os traços de uma núvem, desvanecer-se-á como uma névoa que os raios do sol expulsam, e que seu calor dissipa. A passagem de uma sombra: eis a nossa vida, e nenhum reinício é possível uma vez chegado o fim, porque o selo lhe é aposto e ninguém volta. Vinde, portanto! Aproveitemo-nos das boas coisas que existem! Vivamente gozemos das criaturas durante nossa juventude! Inebriemo-nos de vinhos preciosos e de perfumes, e não deixemos passar a flor da primavera! Coroemo-nos de botões de rosas antes que eles se murchem! 

Ninguém de nós falte à nossa orgia; em toda parte deixemos sinais de nossa alegria, porque esta é a nossa parte, esta a nossa sorte!

("Livro da Sabedoria" 2:1-9) E que sorte!

Tudo agora, mamãe, ficou resumido, condensado em cinzas dentro de um saquinho plástico onde um rotulo diz:
Santa Braguim Canales. A urna que a guarda, mamãe, é dourada. Ver suas fotos e imaginar que a senhora esta ai dentro e inconcebível. Toda uma vida, toda uma beleza de mulher reduzido a dois quilos de cinzas. Se há um Deus não o entendo. Nunca vou entendê-lo. 

Revendo hoje "Salomão e a Rainha de Sabá" ha uma cena onde a rainha, elogiando todo o esplendor do reino de Salomão em Israel diz: 

"E tudo isto para um Deus que nem vê."



Certo ou não, me faz pensar muito. Se formos falar sobre deuses e santos, para mim só existiu a Virgem Maria que a senhora representava no palco. Essa é a única santa. Uma santa que vi, com quem falei, que me deu vida, que me ajudou a ter uma vida linda. Essa santa existiu de verdade e foi santa duas vezes. Sua Virgem Maria no palco, sofria vendo o Filho pregado na cruz; hoje este seu filho sofre por ter perdido a Virgem Maria para sempre. 

Usando um clichê, mamãe, "depois de tudo dito e feito," o que realmente importa neste teatro é o amar e o bem-querer; amar muito.

E eu a amei muito mamãe, não em palavras mas em ações.

O resto é o resto.





"Dios mio, que solos se quedam los muertos!"

(Gustavo Adolfo Bequer)

"Os homens vivem juntos, porém cada um morre sozinho e

a morte é a suprema solidão."

(Miguel de Unamuno)