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Lícia Pecchio Silveira -  "Dona Alice"

 

por Letícia Pecchio

Nossa avó Lícia Pecchio Silveira nasceu em Avaré, em 27 de agosto de 1913. Filha de Zaira e Guido Pecchio, italianos radicados no Brasil. Chegou a Quatá com seus pais e irmãos, ainda criança. Eram 09 irmãos: Elvira, Lícia, Sérgio, Rosa (Dedé), Fanny, Hélio (Tato), Lydia, Neide e Sérgio Décio. Todos cresceram e constituíram família em Quatá.

Já era alfabetizada quando seu pai, Guido Pecchio, ajudou a fundar a primeira escola primária de Quatá, onde nossa avó, então, cursou até a quarta série... e fez a quarta-série várias vezes para continuar estudando, pois não eram oferecidos outros estudos em Quatá naquela época! Ela nos contava que, em certa ocasião, na ausência de alguém que assumisse a classe, foi convidada e deu aulas nessa escola primária durante um bom tempo, como substituta, até a chegada de um professor. Autodidata, era, junto com suas irmãs, das poucas moças em Quatá que podia ler e escrever. E não guardava esse saber para si mesma. Generosa e vanguardista ajudou muitas outras mulheres a superarem o analfabetismo. Dentro de sua simplicidade, sabia da importância do acesso ao conhecimento.

Casou-se, ainda moça, em Quatá, com Paulo Pires da Silveira, barbeiro, com quem teve quatro filhos: Dráusio, Maria Dorothy (Dora), Sérgio Hiram e Sedney.

O adoecer de nosso avô Paulo, que pudemos conhecer apenas através de relatos, histórias e fotos, levou-lhe a vida, todas as economias da família, e deixou viúva nossa avó Lícia com 29 anos de idade e com a responsabilidade de cuidar dos quatro filhos e de um sobrinho que morava com ela, todos ainda crianças.

Naquele tempo, Vó Lícia ocupava-se com as tarefas do lar. Não possuía fonte de renda. Para garantir-lhes sustento, começou a aceitar encomendas de bolos, doces e salgados, pois era uma cozinheira de mão cheia. Elaborou os quitutes de muitas festas, batizados, aniversários e casamentos. Não é raro estarmos hoje na varanda de sua casa e alguém parar para conversar e comentar: “Foi sua avó quem fez o bolo do meu casamento”.

Nossa vó Lícia também era muito habilidosa com os trabalhos manuais. Bordava muito bem e fazia flores. Essas atividades também a ajudaram a completar seu orçamento, além de trazer-lhe muito prazer.

Sempre valorizando a educação formal, empenhou-se para que os filhos cursassem até a 4ª série, e mais tarde, logo assim que a primeira turma de um ginásio foi aberto em Quatá, inscreveu todos os quatro... é certo que os irmãos tinham idades diferentes, mas foram inscritos na mesma série, no primeiro ano do ginásio.

Pouco tempo depois, nossa avó passou a ser funcionária do Grupo Escolar de Quatá (atual Luis Gagliardi) onde foi servente durante 30 anos. Funcionária pública aposentou-se nesse serviço. Cuidava da limpeza da escola e da cozinha. Também da sopa, que por muito tempo foi servida aos alunos... além de zelar pela criançada.

Todos nós, netos, nos lembramos de estarmos em tempo de férias na casa da vó Lícia, aguardando o meio dia e o seu intervalo de almoço para ir buscá-la na porta do grupo. Disputávamos quem iria segurar suas mãos, para voltarmos de mãos dadas para casa. 

Outras vezes, aguardávamos na varanda, olhares ansiosos para vê-la despontar na esquina do jardim, minutos antes de corrermos em desembalada carreira em sua direção para o abraço. Qual neto não se lembra de ajudá-la a lavar os corredores, o pátio e as escadarias do Grupo (que folia!), apagar as lousas de todas as classes, arrumar cadeirinhas coloridas em volta de mesinhas nas classes de educação infantil, em tempo de fim de férias, preparando a escola para o reinício das aulas. Hoje adultos, imaginamos o quanto devíamos atrapalhar ao invés de ajudar.

 O fato é que pretendendo ajudá-la, podíamos tê-la por mais alguns momentos perto da gente, e durante a sua jornada de trabalho.

Entre as diferentes formas que nossa avó serviu ao próximo, foi auxiliar o Dr. Dessimone que costumava chamá-la para ajudá-lo nos partos mais complicados. Muitos quataenses nasceram com a ajuda de Dona Alice, como era conhecida na cidade.

 Pouca gente sabe que o nome dela é, na verdade, Lícia. Lícia Pecchio Silveira.

A vida trouxe-lhe novas filhas. Mãe por devoção de Lygia e Regina, também lhes deu cuidados e formação.

Seus filhos foram crescendo. Passaram a trabalhar, além de estudar. Deram continuidade a seus estudos na escola Normal, a princípio em Paraguaçu Paulista, e depois em Quatá, onde se formaram. Partiram de Quatá em busca de oportunidades de crescimento e desenvolvimento, em busca de trabalho e formação superior.

Dráusio, o mais velho, mudou-se para Racharia para trabalhar no então Banco Mecantil e casou-se com Sidayr, professora que viera de Piraju, para lecionar em Rancharia. Tiveram 04 filhos: Paulo Dráusio (Paulinho), Cláudio (Teté), Gilson (Will) e Lycia Fernanda.

Dora, professora, casou-se com Octacílio (o Vigorelli, como era conhecido em Quatá, por ter um comércio de máquinas de costura dessa marca) com quem teve 03 filhos, Paulo (Pô), João Gilberto (Beto) e Sílvia, todos nascidos em Quatá.


Sérgio Hiram trabalhava no posto fiscal de Rancharia, quando se casou com a também quataense, Clarice Gaspar, advogada. Dessa união nasceram Letícia (Let) e Patrícia (Pat).

Sedney, o caçula, funcionário do Banco do Brasil, casou-se com Marivalda, professora de Rancharia, e passaram a residir em Santos. De seu casamento nasceram Luciana e Ronaldo.

Regina, professora, casou-se com Orlando Marques, comerciante em Quatá, e com ele teve dois filhos: Evandro e Fernanda.

Lygia, também professora, casou-se, morou em Quatá por algum tempo com suas filhas Paula, Juliana e Ana Maria (Aninha), antes de mudarem-se para Ribeirão Preto.

Nossa avó Lícia Pecchio empenhou sua vida a esse cuidar de seus filhos e mais tarde dos netos e bisnetos, além de dedicar-se muito a seu trabalho. Desprovida de vaidades, orgulhava-se de não ter medo de nada, e de enfrentar todas as situações com coragem e determinação. Dona de uma ética e um caráter exemplar nos ensinou, com suas atitudes, a encararmos nossas dificuldades como molas propulsoras para superação e aprendizagem para a vida. Guerreira. Firme. Poderosa.

Também delicada, amava as flores. Suas preferidas, as rosas. E plantar ... seu quintal era um mundo a parte. Teve galinheiro, no tempo em que se criavam galinhas em casa. Teve fossa, no tempo em que a infra-estrutura sanitária básica em Quatá deixava a desejar. Mas, sobretudo teve muitas flores. Árvores frutíferas e flores. Muitos canteiros, sempre bem cuidados: hortências, orquídeas, margaridas, manacás, brincos de princesa, onze-horas... e rosas. Lindas roseiras. Vez ou outra as colhia para oferecê-las a Nossa Senhora, arrumando-as em um vaso que mantinha diante da imagem da santa em seu quarto.

Era muito religiosa e católica fervorosa. Já com bastante idade, sem poder locomover-se até a igreja, recebia a comunhão em casa, e assistia às missas pela televisão. Não sabia dormir sem antes rezar o terço. Generosa e caridosa era amiga dos pobres. Gostava de ajudar aos mais necessitados. Costumava dizer: 

Devo ter feito alguma coisa que agradou o Senhor que permitiu que eu visse o meu filho caçula completar 70 anos!”


Licia Pecchio em 2005

A vó Lícia não tinha como não gostar de esportes, em especial do futebol, influenciada que foi por seu marido, o famoso Loló, seu pai e seus irmãos, verdadeiros craques. Torcia para o São Paulo Futebol Clube, para o desespero de muitos dos italianos da família.

Sua companhia alegre e inteligente era constantemente requisitada. Gostava de receber e de ter a casa sempre cheia e movimentada. Com os vizinhos mantinha uma amizade de muitos anos e um enorme querer bem. Juntos formavam uma grande família.

Sua casa permanecia sempre aberta (literalmente aberta, pois era assim que mantinha a porta da frente), e pronta para receber os amigos, quando quisessem, sem a necessidade de uma comunicação formal antecedendo uma visita. Chegavam para um café, para alguns minutos de conversa, para levar uma palavra amiga, para compartilhar uma refeição, para dar umas risadas, para resgatar lembranças, para levar e receber alegria e atenção... e assim todos os amigos, os amigos dos amigos e seus amigos...

Sua casa deu guarida a quem a procurou ou dela precisou. Seu sobrinho Benedito da Silveira Pires (Dito) morou com ela durante dez anos. Seu cunhado José Gonçalves (Jô) com seu filho, Paulo Sérgio, também estiveram por uma temporada na casa de nossa avó Lícia. Seu pai, Guido Pecchio, morou com ela durante os últimos doze anos de sua vida. Bastava estar adoecido, entristecido, desamparado para recorrer-se a esse encantado refúgio, e lá recuperar energia e alegria para prosseguir. Temperança.

 Há pouco tempo, assustadas com as notícias dos tsunamis na costa da Tailândia, e por morarem em frente ao mar, suas pequenas bisnetas sugeriram para a mãe: “Vamos prá casa da vó Lícia! Lá, tudo estará bem”. Porto seguro, sentimento compartilhado por todos.

Nós netos, adorávamos ir para Quatá. Nossa avó Lícia sempre foi muito acolhedora, bem humorada, afetuosa. Recebia-nos com muito carinho. Não era de ficar beijando e abraçando muito, mas era nossa toda a sua atenção. Fazia-nos sentir queridos, importantes. Dava-nos aconchego e uma liberdade só ali experimentada. Mesmo trabalhando, vó Lícia mantinha-se incansável. Um ser pleno de amor, não tem outra coisa a oferecer, não é mesmo? E nós íamos sempre. Íamos todos. Os onze! Sim, 11 netos. Todas as férias, todos os feriados possíveis. A casa de nossa avó Lícia em Quatá foi sempre nossa primeira opção. Assim, durante toda a nossa infância e a adolescência. Podíamos viajar para qualquer lugar do mundo, mas nada era igual nem melhor do que a casa da vó Lícia em Quatá onde tudo sempre virava uma festa! Foram tantos e inesquecíveis Natais. Foram tantos e animados carnavais.

E a Vó Lícia lá, catalisadora dessa união, motivo central, foco principal de nossas idas para Quatá.

 

Deixou-nos com quase 97 anos neste ano de  2010 . Uma mente brilhante e preservada habitando um corpo que começava a ressentir-se de sua idade. Só temos que celebrar o privilégio de tê-la como avó e de com ela podermos conviver por quase um século.

Sentou-se na calçada em frente da casa naquela noite, conversou bastante com os vizinhos que também trouxeram suas cadeiras formando aquela roda gostosa de conversa, aproveitando o frescor da noite, como faziam costumeiramente.

Rezou o seu terço mais uma vez, antes de ir para a cama.

 Dormiu.


Depoimento de Carolina Alves Lima Pecchio

 

Conheci Lícia Pécchio Silveira em 1948,viúva,com 4 filhos(Dráusio,Maria Doroty,Sérgio Hiran e Sidney Gilberto) e 1 cunhado,todos crianças, quando fui lecionar em Quatá, substituindo por um ano na antiga Fazenda Santa Lina e,no ano seguinte,lecionando na Fazenda São Martim,divisa com Rancharia.


Dona Lícia era servente do Grupo Escolar Luiz Gagliardi,fazendo todas as tarefas de limpeza juntamente com Claudomiro e Luiz Guarda.Ela também era responsável pela sopa escolar e limpeza da cozinha.


Lícia Pecchio no casamento da Nívia. Muitos que estudaram no Grupo Escolar Luiz Gagliardi lembram-se
 dela deste jeitinho que está nesta foto


Tornamo-nos muito amigas e com o tempo,conheci seu irmão Hélio,um craque no futebol.Em 1952,nos casamos e minha amizade com Lícia consolidou-se até o fim.Sempre achei essa cunhada uma guerreira,religiosa fervorosa e amiga dos pobres. Sua casa,não tinha chave na porta.Todo mundo,principalmente os vizinhos tinham entrada permitida.

Com o passar do tempo,seus filhos cresceram e,após o curso ginasial,foram estudar em Paraguaçu Paulista,a antiga Escola Normal. Não me esqueço a noite da Festa de Formatura,qundo vi Lícia subindo ao palco de braços dados com o Hiran e Sidney e logo em seguida,o Dráusio entrando com a irmã Dora.

Receberam aplausos de pé.

Lícia criou mais duas filhas:Lygia(sobrinha e afilhada) e Regina,dando às duas a formação de professôra.
Lícia, sempre continuando sua tarefa,antes e depois de aposentada executando e criando quitutes deliciosos para a família e festas de aniversário,casamento,batizado.

Hélio ,eu e nossos filhos, mudamos para Taquarituba em 1971, mas sempre que possível, íamos a Quatá visitar nossos parentes e amigos.
Depois que o Hélio faleceu,em 2005,não conseguia ficar muito tempo sem visitar minha querida cunhada.
A última vez que a visitei,faltavam alguns dias para o Natal de 2009. Ela já estava bem envelhecida.
No seu falecimento,estava em São Paulo,em tratamento médico e não pude despedir-me dela.


Depoimento da bisneta Priscila

A gente passou Natais e Anos Novos.

Levamos a Lece prá Quatá nas férias.

Lembramos as lembranças de que você me viu nascer.

Lembro também que vi o prefeito de Quatá na sua casa.

Lembra que passamos um Natal no balneário? Toda a galera. Estavam se divertindo e você ria e brincava com todo mundo. Conversava e dava muito fora no avô Hiram... rsrsrs. Zoava da minha mãe. Zoava da Sílvia. Dava beijos na Pripis, na Lari e nas outras crianças.

E ficam as lembranças, todo dia que passa. A gente gostava muito de você. Você é única. A mulher mais magnífica.

Sempre fica perto de nós, minha bisavó.

 


 

Agradecimentos a Letícia Pecchio pelo envio das fotos e o emociante texto , Nivia Maria Pecchio e Dona Carolina pelo depoimento  e também a Lycia Fernanda Silveira por algumas dicas.