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A VIAGEM DA VIRGEM MARIA

Saímos juntos do escritório do fiscal da Polícia Federal do aeroporto de Guarulhos. A documentação estava perfeita. Fiquei mais tranqüilo.


"Viu, mamãe, tudo deu certo. Nenhum problema para sua viagem ao Japão outra vez. Não era isso que sempre desejou?"

Sempre tinha evitado que mamãe fizesse essa viagem outra vez. Não pela idade - completaria 85 no dia 22 de setembro de 2010 - mas pelas complicações de saúde. Agüentar um vôo de 26 horas seria um calvário para uma senhora com problemas de coluna. Talvez agüentasse o baque São Paulo-Los Angeles, mas o trecho Los Angeles-Incheon, o aeroporto sofisticado de Seul, seria muito puxado. Além disso, há as horas de espera nas escalas. Mas se fosse só a coluna, a classe executiva ou primeira classe resolveria o problema; mas e se tivesse uma nova hemorragia devido a diverticulitis? Os rins, ou o coração, já com problemas, poderiam também causar transtornos.

Levando tudo isto em consideração, pensava que, talvez, a viagem seria mal aproveitada. Assim sendo, nunca a encorajei que viesse ao Japão pela quarta vez. Tinha muita pena dela; queria tanto rever as cerejeiras e amigos que havia deixado. Desta feita, porém, ela faria a longa viagem sem complicações de saúde.

"Bom, a senhora vai matar as saudades de rever as cerejeiras no seu templo favorito em Kyoto; vai reencontrar a Kishida-san, a Kiyoko, o Okazaki. E o que me deixa contente é que estamos viajando juntos de novo."

Na saída do aeroporto chamei um táxi. Mamãe ao meu lado, levada pela mão.


Santa Canales em sua primeira visita ao Japao, (l981). Chegada ao aeroporto de Narita (Tokyo)

"Já pensou, mamãe, seu aniversario em Kyoto?Lembra quando comemoramos seus 76 anos em Las Vegas? Li em seu diário que adorou o passeio. A senhora relata sua alegria de ter viajado com tanta fartura, de ter aproveitado tanto, visto lugares lindos. A senhora estava deslumbrada com os hotéis. E fala a verdade, mamãe, aquela viagem de carro com o Willie, desde Salt Lake City até Las Vegas foi também um sonho para a senhora! A senhora adorou as cenas panorâmicas: desertos, montanhas e vales."

Continuei meu monólogo até chegarmos no apartamento. Subimos as escadas. Eu a carregando sempre. Durante os dois anos e pouco que fez hemodiálise, era preciso quatro choferes do ponto de táxi para carregá-la até o quarto andar na cadeira de rodas. O prédio é velho e bom, mas sem elevador. Mas, agora que não precisaria mais da hemodiálise, eu, sozinho, a levava sem a cadeira de rodas.



Ao entrarmos na sala, a deixei no sofá e fui cuidar de tantas coisas que ainda me restavam fazer antes do dia da viagem, já bem perto. Não sei porque, ao escolher fotos que traria para o Japão ou não, separei muitas dos tempos do circo.

"Mamãe, como a senhora está linda nestas fotos. Não vamos deixá-las aqui. Levamos todas ou as melhores? Escolhi, entre tantas, uma sua de Virgem Maria."


A "Virgem Maria" no parque central da cidade de Nara. Santa Canales adorava animais e flores. Era muito carinhosa. (1981)


"Sabe, mamãe, me lembro da cena da ressurreição do Cristo. A Virgem Maria, mais Maria Madalena, e João, o apóstolo amado, chegavam ao túmulo de Jesus. Está lembrada?"

Madalena: "Sim foi grande a escuridão."
João: "E houve um sinistro rumor. O solo tremeu."
Madalena: "Que horror."
João: "E os guardas aqui não estão. Todos com medo fugiram."
Madalena: "Do céu castigo de certo."
João: "Que vejo? O túmulo aberto?"
TODAS:"Aberto?"
João: "E vazio."
TODAS: "Vazio?"
Virgem:"Alguém o corpo roubou."
TODAS: "Sacrilégio."

Entre trovões, relâmpagos e muita fumaça, como num passo de mágica, um anjo aparecia a Virgem Maria:

Anjo: "Não Maria, foi hoje o terceiro dia, seu filho ressuscitou." Caia o pano. Aplausos.

Era assim todos os anos. Da platéia, eu adorava a Virgem Maria. No palco, no papel do anjo, lhe dava as boas novas da ressurreição do Cristo, interpretado por meu tio, irmão de meu pai, Henry.


Com Masahiko no apartamento do filho, Luiz Canales, em Kyoto. Santa Canales gostava muito deste jovem que era tao carinhoso quanto a mãe de Luiz. (1981)

Minha participação em "O Mártir do Calvário" não era apenas nessa cena com a Virgem Maria. Muito antes da crucificação do Cristo, eu aparecia a Jesus no Jardim das Oliveiras, enquanto o Salvador orava ao Pai pedindo-lhe que passasse aquele cálice da amargura.Os efeitos especiais de trovões, relâmpagos e fumaça estavam aos cuidados de meu pai.

 


Santa Canales com Masahiko e Kiyoko. Na cidade de Kobe. (1981)

No rompimento ele agitava uma grande folha laminada cujo ruído eram semelhantes a trovoadas; para efeitos dos relâmpagos, acendia e apagava rapidamente as luzes do palco em velocidade relâmpago. A fumaça? No chão, bem no local onde o anjo surgiria, um punhado de pólvora explodia por meio de dois fios elétricos por baixo da mesma.
No meio da fumaça surgia o anjo:


A "Virgem Maria" com o filho Luiz, nos anos 40 no Circo-Teatro Oni.

 

"Divino e doce Jesus, em minha Mão fez a cruz em que Te devem pregar.
Eis o cálice da amargura....." Com um crucifixo em uma das mãos e um cálice na outra,o anjo lhe anunciava sua morte e ressurreição.

"Mamãe, a senhora se lembra de mim de anjo? Túnica azul. Coroa prateada na cabeça loirinha, de franjinha! Asas brancas. Me vestia cedo e zanzava pelo circo até a hora da função de noite. Lembra?

Mas quem diria, mamãe,que na vida real, vinte e tantos anos depois de toda essa beleza da vida no circo eu seria literalmente seu anjo da guarda?

Quando o papai morreu, eu estava no segundo ano da faculdade em Provo.

Estou certo,não é? Desde então, até agora, fui seu anjo da guarda por quarenta e três anos. A senhora brincava as vezes dizendo, com certo tom de verdade, que sou um anjo com chifrinhos pois quando fico bravo.... sai de perto."

Mas a Virgem Maria também, quando ficava brava, era como Jesus quando expulsou os vendedores do templo. O sangue italiano de mamãe fervia logo. 

Mas as explosões da Virgem com o anjo, e vice-versa, não duravam muito tempo. Logo voltavam a conversar; e o anjo não se importava em dar o primeiro passo, afinal de contas, não era ela a Virgem Maria? 

Tudo era logo esquecido. Mas as falas lindas que ela tinha em "O Mártir do Calvário" mamãe não as esquecia, como na cena em que se encontra com Jesus carregando a cruz a caminho do Golgota:

 


Santa Canales pousando em frente do templo `"Pavilhão Dourado" em Kyoto. (1981)



"Que minha dor eu calme? Pede ao Eterno, Que o paraíso mude em fundo averno, súbito a noite no mais claro dia.
Que ao sol radiante apague o fogo intenso, Que em voragens brandas, volva os furacões, Que em gleo torne as lavras dos vulcões.
Tudo isso é dado ao seu poder imenso.
"Pode as estrelas apagar o brilho,
Pode em charnecas converter pomares,
Pode os rios secar, secar os mares,
Não os olhos da mãe que perde um filho.

Os dias se passaram mais rápidos do que imaginava e, quando percebi já estava com minha mãe no jato da Korean Air no vôo para Los Angeles. Não tivemos nenhum problema com a Polícia Federal; embarcamos tranqüilos.

"Puxa, mamãe, quem diria que voltarias ao Japão? Isso me proporciona uma felicidade enorme."

Depois de acomodá-la fiz o que mais adoro ao voar entre Brazil-Japao:

peguei a revista da Korean Air e procurei quais filmes estavam sendo exibidos. Geralmente assisto uma média de cinco a seis . Desta vez, porém, não tinha ânimo para vê-los. Tinha sim, sono, muito sono, muita preocupação; estava cansado. Dormi. Dormi muito. Foi a viagem mais curta que fiz nesse vôo para o outro lado do mundo.



No dia seguinte



Ao entrarmos no apartamento em Kyoto deixei as malas e bagagem de mão no chão, logo após a entrada onde se deixa os sapatos. Da sacola, retirei a frasqueira negra, lacrada pela Policia Federal. Abri a frasqueira e retirei a urna dourada contendo as cinzas de minha mãe. A coloquei em uma mesa redonda, no canto da sala.

Urna no centro. Em um porta-retrato, uma foto de mamãe dos tempos do circo. Do outro lado, uma dos anos oitenta. As duas estão lindas. Ao redor, alguns de seus pertences que tanto adorava: um pequeno quadro com a estampa de uma índia apache comprado em Salt Lake, um passarinho com pilhas e que canta ao som de qualquer ruído (ela adorava ouvi-lo
cantar) e um terço azul que ela tinha na cabeceira da cama, um frasco de perfume do Boticário, "Linda," que nem chegou sentir a fragrância.
Um DVD do filme, "Amélia" está ali também.

"Está tudo bem assim, mamãe?" Abracei a urna. Não podia acreditar que estivesse ali dentro. Cinzas. Só cinzas.

"Amélia" foi o ultimo filme que vimos juntos na sala de seu apartamento. Conta a vida de Amélia Earhart, a primeira mulher-piloto que fez um vôo transatlântico, solo, e a primeira que tentou um vôo volta ao mundo.

 



Três semanas antes.

 


Uma das últimas fotos de Santa Canales meses antes de seu falecimento em São Paulo na madrugada do 23 de agosto de 2010.
 Pele alva. Imaculada. 



"Luiz, estou cansada. Vou dormir. Depois você me conta o final do filme."

Na mesinha de centro, ao lado da cadeira de rodas, deixou metade de um sanduíche que lhe havia preparado. Ela adorava meus sanduiches. A levei ao quarto pelas mãos. Passinhos miúdos, magrinha. Meu Deus, se é que existe Deus, o que tinha acontecido com aquela mãe linda; alta, sempre bem vestida, cheia de glamour e personalidade? Como pode ter ficado nesse estado? A hemodiálise a salvou por um lado, mas a destruiu por outro. Amaldiçoados sejam, até a quinta geração, os médicos que não souberam cuidar bem dela naquela clínica.

A acomodei na cama. A cobri com cuidado e carinho e voltei para ver o fim do filme. Faltava pouco. Ao terminar, voltei ao quarto. Toquei-lhe no ombro:

"Mamãe, mamãe, Amélia morreu no fim."

"Eu sabia que ela ia morrer."

Naquela madrugada de sexta para o sábado, mamãe ficou pior. Poucos dias depois, era cinzas. A urna dourada foi colocada numa frasqueira negra, a qual foi lacrada na Policia Federal para que eu pudesse trazer suas cinzas ao Japão.

 

 A Virgem Maria continua sob a proteção do anjo.



(O script original de "O Mártir do Calvário", tal qual era encenado no palco do circo de meus avós -Circo-Teatro Oni - foi datilografado em Serra Negra em 28 de outubro de 1947. O mesmo se encontra hoje em meu poder, e nele leio com saudades as falas da Virgem Maria).